sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

O dia em que virei Indiana Jones


Não sou expert nesses sites de compra coletiva. Sempre esqueço de verificar algum detalhe quando efetuo um negócio da China. Até agora, tudo o que comprei esteve mais para presente de grego, isso sim.

A última compra foi uma imperdível limpeza de pele com um peeling de diamante por apenas R$ 88. Ah, e o pacote incluía uma massagem relaxante. Parecia incrível e eu e mais algumas dezenas de muchachas dispostas a ficar belas por pouco dinheiro entramos no cardume. Talvez elas tenham sido mais espertas do que eu e acredito que eu devo ser a única entre todas que esqueceu de verificar a localização da clínica de estética. Qual não foi a minha surpresa ao descobrir que o lugar ficava a 40 quilômetros da minha casa. Ê barato que sai caro!

Além da distância, ainda tive que lutar por um espaço na agenda, já que o cardume era grande e as vagas, poucas. Pouco mais de um mês depois da minha compra sensacional, rumei para o recanto da beleza sem fim. Achei que ia chegar em um SPA repleto de piscinas de água cristalina e moços fortes e malhados abanando moças jovens e esbeltas segurando copos de suco de frutas vermelhas com adoçante. Já tinha me imaginado caminhando pelos caminhos de seicho entre árvores frondosas e uma grama bem aparada.

O que encontrei foi uma saleta com divisórias de octanorme no terceiro andar de um prédio esquisito e uma esteticista tagarela. Era incrível a capacidade dela de não parar de falar. E mais: fez um discurso quase possuído sobre higiene, limpeza e esterilização. Senti que estava no reino da assepsia até que, de luvas, ela pegava todo o material de que precisava, abrindo e fechando portas de armários, mexendo nos equipamentos e até atendendo o telefone. Ou seja: luvas para quê, né?

Ignorei a parte das luvas e me resignei a escutá-la. O tal do peeling de diamante não tem nada de glamouroso. É uma lixa com ponta de diamante que esfolia sua pele a força. Até aí nada de mais. O bicho pegou mesmo quando ela colocou uma argila no meu rosto e disse que eu tinha de ficar calada, imóvel. Depois de passar tudo, ela disse: essa argila dá uma repuxada na pele, por isso a gente sempre pergunta se a pessoa é claustrofóbica, sabe? E eu, reduzida a uma múmia silenciosa me perguntava em silêncio: como assim ela sempre pergunta? Ela não me perguntou nada!

Achei que ia ser uma repuxada básica, tipo cola branca na mão. Foi aí que o desespero começou. A argila repuxava em todos os sentidos e parecia que tudo ia mudar de lugar no meu rosto. Já estava vendo a hora dos olhos encontrarem com a boca. Me senti emparedada, que nem na cena em que o Indiana Jones parece ter chegado ao trágico fim de ser esmagado por duas paredes que vão se juntando. E não podemos nos esquecer de que eu estava cumprindo a lei do silêncio à risca, o que só aumentava meu desespero dentro daquela máscara que ia endurecendo na minha cara, com a possibilidade de me transformar na Senhora Cabeça de Batata depois de uma criança de dois anos ter encaixado as peças.

Algum tempo depois, a esteticista tagarela tirou as paredes do Indiana Jones do meu rosto e disse que tinha anunciado outra promoção no site de compra coletiva. Desta vez era uma massagem relaxante para pés e mãos das sereias e tubarões. O cardume que me desculpe, mas prefiro seguir na carreira solo. Compra coletiva pode terminar em filme de aventura.

3 comentários:

Carlos disse...

Mas é uma bela descrição para a angústia. :)

Mabel disse...

Tatááá, se eu te contar da clinica de depilação que a p...a do cardume me vendeu vc vai cair duraaaa!!! Fica praquela visita que vc me deve! Ou eu te devo?? :)

Glauco disse...

Hauhaahuha! Que roubada!
Bom... pelo menos vc pagou menos.