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quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

Castanha de caju não é caju


O novo é sempre um momento de recriação. O outro traz sempre um universo desconhecido embrulhado em fita de cor. Tem gente que abre aos pouquinhos, pra degustar cada um dos passos que se dá com a caixa nas mãos. Tem gente que rasga o embrulho pra ver logo que cara tem aquilo tudo. Tem gente que acha a caixa sem graça demais e passa logo para o próximo pacote. Tem gente que brinca pra sempre com o presente e não se cansa de reinventar a brincadeira. Recreação.

A novidade não é um mar em cio em que não se consegue navegar. A novidade é a paz do barco aportado pra onde o mundo olha com inveja por não poder ancorar. Novidade é não viver entre altos é baixos. É trafegar entre altos e mais altos ainda com a certeza de que um novo despertar nunca será mais passado do que o ontem.

Tentar e testar são verbos que merecem ser conjugados em todos os modos. Imperativos, subjuntivos e indicativos. Eu prefiro o modo afirmativo pra acabar logo com a dúvida. Entre o sim e o não, fico com o pingo no i. A careta do limão é a certeza do azedume da fruta. O feijão no dente é a certeza de que o arroz fica melhor acompanhado.

Só dá pra gostar das coisas que são experimentadas. E de quantas coisas deixamos de gostar porque sequer tentamos saber que gosto têm?

terça-feira, 14 de julho de 2009

O MAR de um PORTO SEGURO


Era a primeira vez que pisava ali. Não sem uma certa estranheza, tateava as paredes e olhava bem onde pisava. Queria conhecer aquele lugar tão novo. Queria guardar aquela imagem em sua mente. Doía só de pensar esquecer algum detalhe daquilo que tanto a encantava.

Rodava sua saia em movimentos de uma dança que existia apenas lá, naquele lugar. Era um ritmo novo, um novo dançar. E era uma dança contagiante, daquelas que não dá vontade de parar. E quanto mais ela girava, mais giros queria dar.

Tudo era luz. Tudo era novo. Mas tudo parecia tão parte dela quanto o pequeno travesseiro que carregava desde menina. Aquela poltrona ali no canto contava ter guardado suas tardes apegadas aos livros de contos. O abajour testemunhou inúmeras de suas noites insones. O tapete tinha a poeira de seus pés.

O criado-mudo dizia o que ela escondia em gavetas desde sempre. As cortinas cantarolavam sua música favorita. O abre-e-fecha das portas dos armários entregava medos e anseios que ela jurava sequer falar em voz alta tamanha sua vontade em escondê-los.

Tudo era novo. Muito novo. Mas a poeira do tempo encarregava-se de atestar que aquilo já existia ali antes dela. Existia antes dela, mas encontrou explicação pra sua história, com ela. Por vezes, nela.

Era a primeira vez que pisava ali. Mas parecia que nunca havia existido um outro lugar no mundo.