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sábado, 17 de outubro de 2009

Medida exata


Eu te amo.

Eu te amo mais a cada dia e quero te amar cada dia mais.

Mais.

Cada dia mais.

Quero poder te amar mais vezes. Mais dias. Mais meses.

Quero te amar numa curva crescente que nunca seja suficiente.

Quero te amar na medida exata pra nunca tirar de você aquela pontinha de dúvida que te dá vontade de fazer o meu amor crescer.

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Viajar é dizer adeus


O sono que se dorme junto passa a ser a insônia da madrugada vazia. A luz da geladeira brilha mais que o sol nascente. O copo d'água, na cômoda ao lado da cama, molha a capa do livro interrompido nos primeiros capítulos.

A televisão dialoga com o sofá por horas a fio. Ninguém interrompe. Não há vozes que gritem mais alto que o silêncio ensurdecedor. Pela pia escorre o creme dental em espuma. Não faz mais sentido alimentar o encontro das escovas. Enquanto uma se descabela dia-a-dia, a outra permanece seca, incólume, sem "bom dias" nem "boa noites". Seu tempo é ontem.

O incenso perfuma as lembranças. Os livros contam as histórias mudas de uma vida sobre a prateleira. A janela deixa sair o sopro do suspiro que entrara em doses homeopáticas sobre pernas ágeis e dispostas. As paredes querem falar, mas calam-se para poupar os ouvidos de quem quer enxergar o céu estrelado.

Brotam flores por todos os lados. A semente germinou na terra fértil. Germinaram também ervas que colorem de tons de verde o chão repleto do adubo incômodo que faz desabrochar a flor e seu perfume. A rosa não tem apenas pétalas e o espinho fere além da carne.

O teto torna-se cada vez mais baixo. Aproxima-se dos sentidos que ricocheteiam como balas distraídas deixando marcas na pintura desbotada. Nesse mundo de concreto e vidro não há tapetes para pousar os pés. As redes balançam-se ao sabor do vento para consumar a união de suas fibras e tapar os buracos de seu vazio.

Os encontros furtivos, por vezes sequer notados entre as palavras que se perdiam em sua própria função de comunicar, viraram móbile sobre a cama. Giram e tocam música como se bastasse ser espírito para apossarem-se de um corpo e existir.

Dizer adeus faz parte da viagem. A volta ao ponto de partida nem sempre fica marcada no calendário.

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

Um poeta sem dor é um sofredor


A inspiração do poeta vem do pulso do seu coração. Coração que pulsa tranquilo não rende as mágoas para um bom emaranhado de palavras.

O poeta vive a angústia que motiva o ofício. Não que lhe faltem sentimentos quando lhe falta a agrura. Mas nos momentos de bonança, que graça tem chorar sobre um papel, um violão ou uma tela de computador?

Na penumbra de si mesmo, surgem as sombras que contam histórias, movimentam o enredo e dão vida à bela expressão de quem sofre sozinho, mas nunca calado.

A dor pode ser de amor. Seja o excesso que consome ou a falta que desnutre. A saudade também tem sua parcela dolorida. Assim como a angústia, a solidão ou a suspeita de uma traição.

Se tiram do poeta o lápis, tiram-lhe o pulmão. Se tiram a borracha, tiram a respiração. Se tiram-lhe o papel, arrancam seu coração.

Quando as palavras o tomam pra si enquanto ele se deixa levar, estabelece-se o pacto de fidelidade. Algo de muito terno faz do poeta sereno com a possibilidade de tê-las como companheiras para sempre.

Adoecer em uma rede e saber que elas estarão ao lado, repousando sobre a mesa de canto, com suas fórmulas curadoras traz a paz que o coração do poeta não quer. Devora-as publicamente, sem o menos dos pudores, em um menu repleto de nomes.

As palavras jogam-se sobre ele. Mas ele apenas as toca quando chora por uma dor.

terça-feira, 14 de julho de 2009

O MAR de um PORTO SEGURO


Era a primeira vez que pisava ali. Não sem uma certa estranheza, tateava as paredes e olhava bem onde pisava. Queria conhecer aquele lugar tão novo. Queria guardar aquela imagem em sua mente. Doía só de pensar esquecer algum detalhe daquilo que tanto a encantava.

Rodava sua saia em movimentos de uma dança que existia apenas lá, naquele lugar. Era um ritmo novo, um novo dançar. E era uma dança contagiante, daquelas que não dá vontade de parar. E quanto mais ela girava, mais giros queria dar.

Tudo era luz. Tudo era novo. Mas tudo parecia tão parte dela quanto o pequeno travesseiro que carregava desde menina. Aquela poltrona ali no canto contava ter guardado suas tardes apegadas aos livros de contos. O abajour testemunhou inúmeras de suas noites insones. O tapete tinha a poeira de seus pés.

O criado-mudo dizia o que ela escondia em gavetas desde sempre. As cortinas cantarolavam sua música favorita. O abre-e-fecha das portas dos armários entregava medos e anseios que ela jurava sequer falar em voz alta tamanha sua vontade em escondê-los.

Tudo era novo. Muito novo. Mas a poeira do tempo encarregava-se de atestar que aquilo já existia ali antes dela. Existia antes dela, mas encontrou explicação pra sua história, com ela. Por vezes, nela.

Era a primeira vez que pisava ali. Mas parecia que nunca havia existido um outro lugar no mundo.

domingo, 7 de junho de 2009

Nunca ganhei um beijo


Preciso fazer uma confissão: eu nunca ganhei um beijo. Pasme! Mas ao contrário do que dizem muitas mulheres, nunca fui beijada.

Eu nunca achei que fosse possível ser beijada. Ser beijada presume um ato praticado por apenas um dos lados. E um beijo não se faz com um, mas com dois lábios aplicados na arte do encontro.

Todas as vezes em que foi oferecido a mim, o beijo ganhou tanto de mim quanto do outro.

É a mesma lógica do abraço. Ninguém ganha um abraço. Abraços são trocados. Numa sincronicidade não ensaiada, os braços de um envolvem o outro a tal ponto em que não se distingue quem começou e quem terminou aquele gesto.

Mesmo quando se pede um beijo, ou um abraço, não é algo que apenas se ganha. O pedido é apenas o despertar de uma ação que começa com duas (ou mais) pessoas e acaba com duas (ou mais) pessoas. O beijo só é beijo quando é praticado pelo todo. Assim como o abraço não é abraço sem o braço que envolve reciprocamente.

Quando damos um abraço e o outro não responde, fica aquela sensação de que há alguma coisa errada. Ou a pessoa é tímida, ou está chateada, ou, simplesmente, não sabe abraçar. Um abraço sem todos os braços, fica meio frio, meio vazio.

Um beijo sem duas bocas, um beijo de um lado só é beijo forçado, beijo recusado, beijo amedrontado, ou beijo que não quer acontecer. Um beijo de verdade é beijo em harmonia, como a forte sintonia entre o despertar do sol e o dormir da lua.

Beijar e abraçar são verbos reflexivos. As pessoas beijam-se e abraçam-se. E se não tiver o "se" fica uma coisa assim, meio sem ter pra quê.

O encontro é uma troca. Não tem dar, nem receber. Existe apenas uma escolha, a escolha do mútuo olhar, dos mútuos carinhos e do mútuo querer.

Receber beijos nos coloca na condição de espectador de algo que poderia ser vivido intensamente. Mesmo os beijos estalados, dados na bochecha ou na nuca, conversam com a pele e sentem os pêlos eriçados tocarem os lábios em resposta.

Dar um beijo, roubar um beijo só vale quando o outro colabora. Beijo forçado não é beijo, é lábio que aterrissa numa parede inerte que não escolhe aquilo que a toca. É como o mosquito que pousa em nossos tetos para perturbar o nosso sono. Ele não foi escolhido, ele só está ali.

No meu mundo, os abraços são cada vez mais verdadeiros e os beijos cada vez mais calorosos. Porque uma vida de beijos ganhos é uma vida sem trocar. E no espetáculo do amor (de todo tipo), mais vale ser ator principal do que platéia apática, que gasta aplausos a cada quadro a que assiste, como se não tivesse em si a capacidade de retribuir.

terça-feira, 2 de junho de 2009

A última dança


Passo o tempo a pensar. Quanto mais o tempo passa, mais eu penso em poder parar. Parar o giro da Terra para poder pensar. Pensar no mundo, pensar em tudo o que há no mundo. Pensar no que faz o mundo girar.

A roda percorre o mundo porque gira em si, sem olhar pro lado. Nós percorremos a vida quando saímos do eixo, sem um cálculo acertado. Estar para a roda, assim como a roda está para si, significa ficar dentro da prisão que faz o pulso diminuir.

O coração tem que acelerar para viver o seu pulsar. O batimento que dá vida não pode nunca parar. O coração tem que amar e odiar. Amar porque o faz sentir que tem vida. Odiar porque um amor só acaba quando seu antônimo chegar.

E quando um amor acaba, não há como recuperar. É cada um por si num mar de dor que só é dor porque tamanho era o amar. E no amor que era, não há como continuar. Porque amor tem que ser no presente. No passado, é duro penar. No futuro, não é amor, é imaginar.

E aquilo que um dia era uma coisa pra sempre, virou coisa pra trás num balaio de palha em que não cabe guardar. Cabe apenas um pouco daquilo que suja, a poeira vai escapar. A ampulheta da vida deixa escorrer a areia que escreve os nomes de dois pro mar apagar.

A maré, que vai e vem, leva o mar-de-rosas e traz o sol nascente. A luz chega com o dia, enquanto a noite escurece o quarto sombrio. O sonho esquenta a cama que esfria no hiato do abraço vazio.

Mais um dia se passa e fica mais longe o sofrer. Cada dia é um dia a mais na arte de viver. Somar dias de dor não faz bem pro amor. Ele chega a qualquer instante, sem nenhum rigor. Não feche as portas nem janelas, que esse moço que entra no coração ainda não aprendeu a pular os muros, não.

segunda-feira, 23 de março de 2009

S-A-U-D-A-D-E


Quando não se mata a saudade, ela acaba nos matando. Matando de fome e de sede como se anulasse todos os sentidos e quisesse ser única dentro de nós. Toma conta dos pensamentos, da nossa rotina e de cada momento em que não conseguimos ficar imunes ao seu poder implacável.

Sentir saudade é cavar vazios no peito. É, também, ter a certeza de que os buracos são proporcionais a sentimentos bons e verdadeiros. Só sentimos saudade daquilo que amamos. Quanto mais amor, mais saudade. Há também os que sentem saudade de uma dor. Mas tudo o que dói um dia, já foi amor.

Saudade é a soma do amor com o vazio que ele deixa.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

1 acordo de damas e cavalheiros em 3 passos


Olhe nos meus olhos e diga que não quer mais olhá-los

Encoste seus lábio nos meus e diga que não quer mais beijar-me

Coloque sua mão sobre a minha e diga que acabou o passeio

Diga três vezes intensamente que acabou. Se você dormir em paz, eu entendo a minha guerra interior.

sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

Sinestesia


O cheiro do amor
fala mais alto
mesmo quando sabemos
que já não se ouve mais
o seu calor

terça-feira, 23 de dezembro de 2008

Da arte de dizer adeus


Depois de um longo mês de amor, compreenderam que não celebravam a união, e sim, a despedida. No lugar das fotos, guardavam as lembranças. Os ingressos dos shows, museus, espetáculos iam juntos para a lixeira mais próxima. Não dividiram um prato sequer. Tampouco provaram da comida ou bebida do outro. Compartilhavam sua existência. Brincaram de possuir estrelas e olhar a lua. Não pensavam no futuro, mas passavam tardes a fio percebendo as marcas do passado. Nem um bilhete. Nada escrito. Sequer ousaram usar de flores (exceto pela margarida que ela roubou de um canteiro para ele no dia de seu aniversário). A margarida que marcava a página do livro dele. O livro que ele quis dar a ela, mas só conseguiu que aceitasse o marcador de papelão com um poema de Neruda. Aceitou também as mãos enlaçadas sobre as suas enquanto caminhavam. Sem hesitar, aceitou seu cheiro, seu gosto, seu corpo. Aceitou chamá-lo pelo apelido, em vez do nome composto. Do sobrenome, não quis nem ouvir falar. Ganhou dele um pacote de cerejas, que saboreou calada e sozinha. Quando estava frio, não queria o casaco dele emprestado, mas os abraços, estes recebia de bom grado. Dividiram o banco da roda-gigante e o prazer de comer algodão-doce (o dele, branco. O dela, cor-de-rosa). Dividiam as alegrias. As angústias iam pra uma caixinha dentro do banheiro que só se abria para escorrer em lágrimas durante um banho solitário. Falavam a mesma língua: gestos, expressões e sorrisos. O sotaque amarrado dele. A doce leveza de sua voz na tentativa dela em se fazer entender. Pouco diziam as palavras, mas os sorrisos falavam por si só. No metrô sentavam-se frente a frente e não conseguiam parar de se olhar. Era a forma mais legítima de carregar consigo um pouco mais do outro. Na cama, não conseguiam encarar-se. Acordavam e dormiam juntos. Dormiam abraçados toda a noite com medo de se largar. Ela gostava de dormir no escuro. Ele também. Mas passaram todas as noites com a luz do abajour ligada porque nenhum dos dois ousou perguntar ao outro se podia apagar. Ele sempre carregava a chave da porta para não perdê-la. Ela sempre tinha medo de perdê-lo. Ele usava um chapéu para segurar seus pensamentos. Ela tirava o chapéu dele enquanto se beijavam. Apostavam corrida sempre que passavam pela alameda. Ela ganhava todas as vezes. Ele ficava pra trás de propósito sem que ela percebesse. Ela se sentia mais forte assim. Davam e recebiam aquilo que era sua moeda mais preciosa: o seu tempo, suas almas.

Na hora do adeus, dividiram as lágrimas. Compreenderam que cada um tinha uma vida por viver, um caminho a seguir. Mas sabiam que seu destino era encontrarem-se sempre que quisessem ser um pouco mais felizes.